REFORMA DO ESTADO: IMPLICAÇÕES SOCIAIS E ECONÔMICAS DAS POLÍTICAS NEOLIBERIAIS NO BRASIL

Dejalma Cremonese  

UNIJUÍ – RS

             Este trabalho procura demonstrar as conseqüências nefastas das reformas neoliberais, decorrentes das políticas do Consenso de Washington, por que passou o Estado brasileiro nos anos 90, principalmente nos campos econômico e social.

Inicialmente, é preciso explicar que o Consenso de Washington não foi nenhuma conspiração político-econômica ou trama diabólica do FMI, BID, BIRD, nem do governo americano para aplicar nos países da América Latina. A síntese das idéias que circulavam pelos bastidores das instituições internacionais e no governo norte-americano foi elaborada pelo economista John Williamson, em reunião na cidade Washington no ano de 1989. Essa reunião ficou conhecida como Consenso de Washington, a qual tinha como objetivo discutir as reformas necessárias para a América Latina.

Quais seriam os acordos que o economista percebia? Williamson afirmou na época: “Eu dividiria o que sinto, pressinto e leio como um grande consenso em três planos”:

O primeiro plano é de ordem macroeconômica. Há um acordo completo entre todas as agências econômicas de que todos os países periféricos devem ser convencidos a aplicar um programa em que lhes é requerido um rigoroso esforço de equilíbrio fiscal, austeridade fiscal ao máximo, que passa inevitavelmente, por um programa de reformas administrativas, previdenciárias e fiscais, além de um corte violento no gasto público. Esses países devem fazer políticas monetárias rigidíssimas, porque a prioridade número 1 é a estabilização, sendo que a política fiscal tem que ser submetida à política monetária.

O segundo plano visa apresentar propostas e reformas de ordem microeconômica: é preciso desonerar fiscalmente o capital, para que ele possa aumentar a sua competitividade no mercado internacional, desregulado e aberto. Então, o único caminho de as pequenas empresas situadas nos países da periferia entrarem nesse jogo seria por aumento de competitividade, o que passaria por desoneração fiscal, flexibilização dos mercados de trabalho, diminuição da carga social com os trabalhadores, diminuição dos salários.

A terceira ordem de coisas que o Consenso propunha era: nada disso será possível se não houver o desmonte radical do modelo anterior (Estado interventor) que houve nesses continentes, um modelo perverso, que, segundo o pensamento do Consenso, funcionou mal, e que o modelo de importação de industrialização por substituição de importações, foi um conceito pessimamente usado. Em síntese, as propostas do Consenso de Washington seriam que os Estados latino-americanos passassem por profundas reformas estruturais, também chamadas de reformas institucionais. A primeira seria a desregulamentação de alguns setores, sobretudo o financeiro e o do trabalho. E isso já foi feito em quase todos os países da América Latina; A oura proposta é a da privatização, de preferência selvagem; a terceira: abertura comercial; a quarto: garantia do direito de propriedade, sobretudo na zona de fronteira, isto é, nos serviços, propriedade intelectual etc.

Sempre estudamos o Estado, na sua concepção moderna, como uma instituição criada a partir de uma convenção da sociedade com o objetivo de garantir a segurança, a propriedade, a vida (direitos naturais), isto é, uma instituição capaz de assegurar o Bem-Estar a todos os cidadãos. Os teóricos neoliberais, contrários ao Estado-social, apregoam que o Estado tem apenas uma função: garantir, através de seu aparato, o livre mercado. Estas idéias já foram defendidas pelo liberalismo clássico do século XVII, mas o Estado neoliberal tem um diferencial: o descompromisso com as questões sociais, afetando a saúde, educação, infra-estrutura, segurança e a política previdenciária da coletividade.

As políticas neoliberais globalizantes começaram, no Brasil, no início dos anos 90, ainda com o presidente Collor de Melo que, de uma maneira surpreendente, deu início às reformas de Estado. Começou, neste período, a desregulamentação econômica, abertura do mercado e a planificação da economia (tentativa de diminuir a inflação galopante). Ocorrem, neste período, igualmente, as tratativas iniciais com as instituições internacionais, principalmente o FMI.

As reformas do Estado no governo Collor não foram bem-sucedidas, nem mesmo a própria elite empresarial estava preparada para tais mudanças, muito menos a elite política do Brasil, que se mostrou um tanto “preocupada” com os rumos que as reformas do Estado, promovidos por Collor e sua equipe, poderiam desencadear. Foi nesse contexto que o governo Collor viu-se enredado em situações ilícitas, em que processos e acusações de corrupção começaram a acumular... A mídia brasileira, a mesma que apostou e promoveu o governo Collor, teve que, aos poucos, deserdar o “caçador de marajás” e cair na a realidade mostrando as imagens das numerosas e grandiosas mobilizações sociais, provindas de todos os setores da sociedade civil. Collor de Melo não tinha nenhuma base política, a não ser o seu frágil partido o PRN (Partido da Renovação Nacional), e, talvez essa tenha sido uma das razões para o processo de impeachment que acabou sofrendo. Collor foi julgado e condenado, tendo que deixar, melancolicamente, seu governo marcado mais por excentricidades, bloqueio da poupança da população e pela corrupção do que propriamente a reforma do Estado que se propusera fazer. Assume a presidência da República o vice de Collor, o mineiro Itamar Franco, com um governo mais voltado para as políticas internas: as negociações com o FMI dão uma trégua e as reformas do Estado cessam por um curto período.

Ainda no governo Itamar Franco, assumiu o Ministério das Relações Exteriores o então senador Fernando Henrique Cardoso, um cargo que sempre esteve em seus planos. As tratativas com as instituições internacionais (FMI e Banco Mundial) recomeçam. Logo após, FHC passa a ser Ministro da Fazenda e institui, junto com uma equipe de técnicos, um plano econômico (Plano Real) capaz de frear a inflação e restabelecer a volta do crescimento econômico. Tais políticas significam a volta do programa de reforma de Estado iniciada por Collor e interrompida por Itamar Franco.

É importante mencionar que o FHC e seu partido (PSDB) partem do princípio de que o Estado deve se “modernizar”. “Modernização” do Estado para significa um Estado mais ágil, menos “truculento”, “moroso” e “burocratizado”. Para isso, a grande propaganda ideológica para que se efetivasse o processo das privatizações das empresas estatais brasileiras. FHC sempre foi um velho admirador da “modernização” do Estado que Collor de Mello havia feito.

A implantação do real veio no dia 31 de julho de 1994 (junto com a Copa do Mundo de futebol). Até o fim do ano a moeda valorizou-se: no final do mesmo ano FHC ganhou as eleições às custas da ficção do Plano Real. A mão estendida de FHC pré-anunciava as sua principais metas: saúde, educação, moradia, agricultura e segurança.

O Plano econômico, chamado, no Brasil, de “Plano Real” fazia parte de uma sistemática política global mais abrangente. A idéia de planificação econômica foi criada pelas instituições financeiras do Primeiro Mundo numa tentativa de conter a elevada inflação das economias emergentes, como é o caso do Chile, México, Argentina, Brasil e outros mais. Disso advém o proselitismo do presidente Fernando Henrique Cardoso, ao afirmar: "Dá gosto ver que hoje nós somos um país respeitado. E o ponto inicial para que houvesse uma volta desse respeito foi a nossa capacidade de vencer a hiper-inflação e de manter a democracia, a nossa capacidade de negociar para poder avançar. Isso mostra que somos um país realmente amadurecido".

Durante o período do Plano Real (equiparação cambial: 1 real chagando a valer mais que 1 dólar), a elite brasileira, literalmente, foi às nuvens. A euforia do Plano Real levou a burguesia e boa parte da classe média brasileira a consumir, de maneira nunca vista, inclusive fretando aviões particulares para fazer compras em Miame (EUA). Do outro lado, o povão comia frango a “um pila o quilo”: de sobremesa yogurte, colocava dentadura nova e fazia compras no Paraguai... Eis algumas propagandas oficiais de FHC durante boa parte do Plano Real.

A partir de então, o processo de “modernização” do Estado se intensifica: desregulamentação econômica, abertura de mercado e privatizações. Outra marca do governo FHC foi o abuso das medidas provisórias (mais de 5 mil medidas). Isso significa um governo de  ditadura civil, pois nem mesmo os ditadores militares (anos 64-85) intervieram tanto na Constituição como FHC. Algumas Medidas Provisórias foram famosas, como é o caso da MP para o processo de privatização e a MP para a vergonhosa e corrupta emenda da reeleição.

Muitos teóricos apregoam que o governo de FHC apenas serviu aos interesses das corporações internacionais, outros o chamam de "embaixador" do Banco Mundial e do FMI. No entanto, sob a acusação de exercer um governo neoliberal, FHC reage num tom sarcástico: “Neoliberal é um conceito de quem não tem imaginação. De quem não vê a realidade. É cópia. É mimetismo”.O Brasil, segundo o presidente, não se encaixa neste módulo, porque vive de problemas peculiares que devem ser resolvidos, não pelo Estado patrimonialista, nem clientelista.

As reformas neoliberais aplicadas especificamente no Brasil implicaram a adoção de programas de ajustes estruturais, como as reformas Administrativa e Previdenciária, que exigiram um rigoroso esforço de equilíbrio fiscal (austeridade fiscal ao máximo), privatizações, redefinição do papel do Estado na economia, causando, ao contrário do que os defensores de tais políticas alardeavam, recessão econômica, ingresso do capital externo, desemprego, aumento do trabalho informal, conflitos sociais, crise de modelos políticos tradicionais, flexibilização dos direitos trabalhistas, precariedade e, mesmo, desmonte dos sistemas de seguridade social, de saúde e de educação.

FONTES BIBLIOGRÁFICAS

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